sábado, 25 de maio de 2019

MUSEU GÓTICO I - GOTHIC MUSEUM I



Tenho me dedicado ao colecionismo gótico desde 1.976, quando adquiri as primeiras peças de uma coleção que conta hoje com milhares de itens. A quantidade é tamanha que, apenas para mostrar algumas peças, percebi que a apresentação seria praticamente impossível de ser condensada numa única postagem.

Por isso, resolvi iniciar a apresentação parcial do acervo com as peças relacionadas aos filmes (cinema e DVD), hoje contando com mais de dois mil DVD (incluindo todos os filmes que serão citados nesta postagem) e centenas de peças publicitárias (cartazes, folhetos e fotografias).




O gênero gótico tem seu termo inicial reconhecido na literatura com a publicação do livro “O Castelo de Otranto” (“The Castle Of Otranto”), de Worace Walpole -1764. A ele sucederam-se centenas de publicações outras, dentre as quais se destacam “Frankenstein”, de Mary Shelley - 1820 e “Drácula” (“Dracula”), de Bram Stoker - 1897. Merecem especial destaque as obras de Edgard Allan Pöe - 1809 a 1849, como “O Corvo” (“The Raven”), “O Gato Preto” (The Black Cat”) e “A Queda da Casa de Usher” (“The Fall of the House of Usher”), entre tantas outras.

O cinema trilhou os sucessos da literatura, sendo boa prova disso a personagem “Drácula”, que inspirou mais de uma centena de filmes.





Desde o cinema mudo, trazendo “Nosferatu” – 1922, de F. W. Murneau, entre outros. Outra grande referência na história do cinema foi “O Gabinete do Dr. Caligari” (“Das Cabinet des Dr. Caligari”), uma das mais marcantes obras do expressionismo alemão, dirigido por Robert Wienne em 1919.

Os estúdios de Hollywood ainda possuíam grande relutância em produzir filmes do gênero. Um dos nomes que mais se destacou ao fomentar o investimento em filmes de terror foi o do ator Lon Channey, por interpretar diversos personagens em inúmeros filmes produzidos na década de 20, como os clássicos “O Corcunda Notre Dame” (“The Hunchback of Notre Dame”) - 1923 e “O Fantasma da Ópera” (“The Phantom of the Opera”) - 1925. Outro grande clássico da época é a primeira versão de “O Médico e o Monstro” (“Dr. Jekyll and Mr. Hyde”) - de 1920.

A partir da década de 30, os filmes de terror passam a ser produzidos tendo por base as histórias e lendas européias sobre vampiros, cientistas loucos e aristocratas insanos, a tazendo como principais personagens os antológicos Drácula e Frankenstein, das clássicas obras de Bram Stoker e Mary Shelley, respectivamente. Os estúdios da Universal tornaram-se célebres pela produção de dezenas de filmes com múmias, homens invisíveis e lobisomens. Bela Lugosi e Boris Karloff são dois atores que se destacam naquele período. Lugosi pela sua inesquecível representação do conde mais famoso da literatura em “Drácula” (“Dracula”) e Karloff pela sua brilhante atuação como o gigante grotesco “Frankenstein”, ambos em 1931. Outras obras representativas do cinema de horror dos anos 40 são os clássicos “King Kong”, “O Homem-Invisível” (”The Invisible Man”), inspirado na obra de H.G. Wells, ambos de 1933 e “A Múmia” (“The Mummy”) - 1932, com Boris Karloff no papel-título, entre outras.

Na década de 40, com a 2ª Guerra Mundial e o verdadeiro horror fazendo parte do dia-a-dia das pessoas, os filmes de terror acabaram ficando em baixa durante algum tempo. Mesmo assim inúmeros clássicos vieram a lume, como a refilmagem de “O Médico e o Monstro” (“Dr. Jekyll and Mr. Hyde”) – 1941, “O Lobisomem” (“The Wolf Man”) – 1941, “A Alma da Frankenstein” ou “O Fantasma de Frankenstein” (“The Ghost of Frankenstein”) – 1942, “Sangue de Pantera” (“Cat People”) – 1942, a refilmagem de “O Fantasma da Ópera” (“The Phantom of the Opera”) – 1943, “O Filho de Drácula” (“Son of Dracula”) – 1943, “A Maldição do Sangue da Pantera” (“The Curse of the Cat People”) – 1944 e “A Casa de Frankenstein” (“The House of Frankenstein”) – 1944, entre outros.

A década de 50 marcou a retomada do medo no cinema, principalmente através da produtora britânica Hammer Studios, seguindo a mesma trilha que tanto lucro deu à Universal, fazendo filmes baratos que usavam e abusavam dos – então recentes – recursos de cor e de muita sensualidade. O principal nome desse período, sem dúvida, é o de Christopher Lee, cuja interpretação do conde em “Drácula” ou “O Vampiro da Noite” (“Dracula” - 1958 fez história, assim como o incansável caçador de vampiros Dr. Van Helsing, vivido por Peter Cushing. A dupla fez inúmeros filmes para a Hammer, encarnando também o Dr. Franskenstein e sua criatura (Cushing e Lee, respectivamente) em “A Maldição de Frankenstein” (“The Curse of Frankenstein”) - 1957, entre outros. Destaque-se o péssimo, porém cultuado, “Plano 9 do Espaço Sideral” (“Plan 9 From Outer Space”) - 1959, que traz como um dos principais atores Bela Lugosi, falecido três dias antes de se iniciarem as filmagens. Para suprir a sua ausência, foram usados trechos não aproveitados de filmes anteriores daquele ator e um dublê, mais alto do que Lugosi e que, por ter compleição facial diferente, ocultava o rosto com a capa, gesto muito copiado posteriormente por vampiros de desenho animado.

Com a era atômica e o advento das notícias sobre discos voadores que passaram a surgir naquela década com mais intensidade, os filmes dos anos 50 passaram a ter também uma temática científica/sobrenatural; criaturas que emergiam de pântanos a partir de experiências atômicas, bolhas assassinas, tarântulas gigantes e homens com cabeça de mosca – “O Monstro da Lagoa Negra” (“Creature from the Black Lagoon”) - 1954, “A Bolha Assassina” (“The Blob”) de 1958, “Tarântula” (“Tarantula”) - 1955 e “A Mosca da Cabeça Branca” (“The Fly”) - 1958, faziam com que os cinemas estivessem sempre cheios, superando até os files da Disney, sendo os preferidos dos adolescentes e jovens.

Na virada dos anos 50/60 surgiu um dos maiores nomes da história dos filmes de terror: Roger Corman. Com o seu pequeno clássico “A Pequena Loja dos Horrores” (“Little Shop of Horrors”) - 1960, Corman mostrou que era possível assustar com classe e pouco dinheiro.

A década de 60 foi extremamente fértil para o gênero, destacando-se a obra de suspense de Alfred Hitchcock, em clássicos como “Psicose” (“Psycho”) - 1960 e “Os Pássaros” (“The Birds”) - 1963. O grande diretor George Romero, produziu o ultra-cult “A Noite dos Mortos-Vivos” (“Night of the Living Dead”) - 1968, que rendeu várias refilmagens e plágios, inclusive por parte dele próprio. O cineasta polonês Roman Polanski chega trouxe, em 1966, a comédia “A Dança dos Vampiros” (“The Fearless Vampire Killers”), estrelado por sua então esposa Sharon Tate e, em 1968, o apavorante “O Bebê de Rosemary” (“Rosemary’s Baby”), o qual teria dado causa ao assassinato da atriz Sharon Tate, esposa do diretor, por uma seita de satanistas.

No Brasil, surge Zé do Caixão (conhecido no exterior, especialmente nos Estados Unidos da América como Coffin’Joe, personagem de José Mojica Marins, um marco da cinematografia brasileira. Dentre sua vasta obra, merecem destaque os filmes “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” - 1964, “Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver” - 1966 (a trilogia só viria a ser completada em 2008, com o filme “A Encarnação do Demônio”. Também merece destaque o filme “O Despertar da Besta” ou “Ritual dos Sádicos” - 1969. 





A década de 70 trouxe a onda do cinema catástrofe, com o traumático “Tubarão” (“Jaws”) – 1975, de Steven Spielberg, “Terremoto” (“Earthquake”) - 1974, entre outros. Vale destacar o filme de suspense “Encurralado” (“Duel”) - 1971, também de Spielberg. O sangue jorrou solto com o filme independente “O Massacre da Serra Elétrica” (“The Texas Chain Saw Massacre”) - 1974, dirigido por Tobe Hooper e com o também independente “Halloween” de John Carpenter em 1978, no qual o mítico serial killer Michael Myers dispara o gatilho para a série de assassinos misteriosos e impiedosos que inundaram as telas nos anos 80. O terror alienígena ficou por conta de “Alien, O Oitavo Passageiro” (“Alien”) - 1979, onde Ridley Scott inaugurou um novo tipo de terror espacial.

O demônio também passou a ocupar espaço como importante personagem gótico naquela década com a possessão do filme “O Exorcista” (“The Exorcist”) - 1973, e o advento do anticristo em “A Profecia” (“The Omen”) - 1976. Espíritos malignos e poderes sobrenaturais também assombraram a plateia em obras como “Terror Em Amityville” (“The Amityville Horror”) - 1979, as inesquecíveis obras adaptadas do renomado escritor Stephen King, como “Carrie, A Estranha” (“Carrie”) - 1976, de Brian De Palma, e o também o cultuado “O Iluminado” (“The Shining”) - 1980, de Stanley Kubrick, trazendo um Jack Nicholson completamente ensandecido como protagonista. Outra marcante obra da época foi o restrito “Eraserhead” - 1977, um deslumbrante pesadelo surrealista que viria a lançar o nome do jovem diretor David Lynch.

A década de 80 trouxe a “espantomania”, com “A Hora do Espanto” (“Fright Night”) - 1985 e também marcou a ascensão dos "slashers" ou "splatters", filmes geralmente de baixo custo, sempre com um maníaco correndo atrás de jovens seminuas e muitos sustos. A principal referência é o famoso “Sexta-Feira 13” (“Friday the 13th”) - 1980, com o popular assassino Jason Vorhees. Seu concorrente mais conhecido, o tenebroso Freddy Krueger, surgiu em “A Hora do Pesadelo” (“A Nightmare on Elm Street”) - 1984, de Wes Craven.

Grandes nomes surgiram no cinema de horror nos anos 80, como David Cronenberg, com “Scanners, Sua Mente Pode Destruir” (“Scanners”) - 1981, “A Hora da Zona Morta” (“The Dead Zone”), uma adaptação de Stephen King de 1983, “Videodrome – A Síndrome do Vídeo” (“Videodrome”) - 1983, “A Mosca” (“The Fly”) - 1986, uma refilmagem do filme “A Mosca da Cabeça Branca” - 1958 e “Gêmeos – Mórbida Semelhança” (“Dead Ringers”) - 1988. No Brasil, o cineasta Ivan Cardoso trouxe a pornochanchada, “O Segredo da Múmia” - 1982.

Outros filmes que foram referência na década de 80 são: “Dia dos Namorados Macabro” (“My Bloody Valentine”) - 1981, “Evil Dead – A Morte do Demônio” - 1982, “Hellraiser – Renascido do Inferno” - 1987, “Gremlins” - 1984, “Re-Animator” (baseado num conto de H.P. Lovecraft) de 1985, “Demons – Os Filhos das Trevas” (“Demons”) de 1985, “Os Garotos Perdidos” (“The Lost Boys”) – 1987, Quando Chega A Escuridão (“Near Dark”) – 1987 e o apavorante “Brinquedo Assassino” (“Child's Play”) – 1988, iniciando a onda dos brinquedos assustadores. Com a então recente tecnologia dos aparelhos de videocassete, a indústria dos filmes de terror entrou numa nova era.

Nos anos 90 os filmes de terror ficaram mais rarefeitos e mal-feitos, muitos sendo lançados diretamente em vídeo. Algumas exceções são a nova versão de “Drácula de Bram Stoker” (“Bram Stoker's Dracula”) - 1992, realizada por Francis Ford Coppola (apesar de apresentar um final diferente do livro), a adaptação do livro de Anne Rice, “Entrevista Com O Vampiro” (“Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles”) - 1994, e a releitura de “Frankenstein de Mary Shelley” (“Mary Shelley's Frankenstein”) - 1994. Tim Burton foi um dos poucos talentos a despontar no período, realizando pequenas lindas obras com sua inimitável estética "dark", como “Edward Mãos de Tesoura” (“Edward Scissorhands”) - 1990 e “O Estranho Mundo de Jack” (“The Nightmare Before Christmas”) - 1993. O diretor Wes Craven volta ao cenário com “Pânico” (“Scream”) - 1996, na esteira dos serial killers dos anos 80, numa espécie de tributo aos jovens retalhados na década anterior, seguido por produções pouco expressivas como “Eu Sei O Que Vocês Fizeram No verão Passado” (“I Know What You Did Last Summer”) - 1997, entre outros.

O único filme que conseguiu quebrar esse marasmo de idéias foi o hiperestimado “A Bruxa de Blair” (“The Blair Witch Project”) - 1999, que se valeu de uma divulgação esperta no novo meio de comunicação de massas da época, a Internet.




Abrindo o novo milênio, temos, já na década de 2000 (2001 a 2010), “Rota 666 - A Estrada da Morte” (“Route 666”) – 2001, “A Espinha do Diabo” (“El Espinazo del Diablo”) - 2001, “O Pacto dos Lobos” (“Le Pacte des loups”) – 2001, o remake “Carrie” - 2002, “Resident Evil” – 2002, que deu início a uma longa série, o filme japonês “O Chamado” (“The Ring”) - 2002, “Freddy vs. Jason” – 2003, “Anjos da Noite” (“Underworld”) - 2003, “Alien vs. Predador” (“Alien vs. Predator”) - 2.004, “Exorcista - O Início” (“Exorcist: The Beginning”) - 2004,o remake “Horror em Amitiville” (“The Amityville horror") - 2005, “O Exorcismo de Emily Rose” (“The Exorcism of Emily Rose”) - 2005,  “Desespero” (“Desperation”) – 2006, baseado na obra homônima do mestre Stephen King, o remake “A Profecia” (“The Omen”) - 2006, “Turistas” – 2006, “Eu sou a Lenda” (“I Am Legend”) - 2007, “Os Mensageiros" (“The Messengers”) – 2007,  “O Orfanato” (“El Orfanato”) – 2007, “REC” – 2007, “Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (“Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street”) – 2007, “Atividade Paranormal” (“Paranormal Activity”)- 2007, “Anjo Maldito” (“It's Alive") - 2008, “A Órfã” (“Orphan”) – 2009, “Espantalho” (“Husk”) – 2010 e “O Ultimo Exorcismo” (“The Last Exorcism”) – 2010.
Merecem destaque, pelo sucesso alcançado, os “vampiros da guarda” de Stephenie Meyer em “Crepúsculo” (“Twilight”) – 2008, dando início à saga que teve como sequências os filmes “Lua Nova” (“New Moon”) - 2009, “Eclipse” – 2010, “Amanhecer – Parte 1” (“Breaking Dawn – Part 1”) – 2011 e “Amanhecer – Parte 2” (“Breaking Dawn – Part 2”) – 2012.
Também há que se destacar o filme “Encarnação do Demônio” - 2008, completando a trilogia de José Mojica Marins (Zé do Caixão) iniciada em 1963 com “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”, seguido em 1967 pelo filme “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”.

Na década de 2010 vieram, desde 2011 até 2019, os filmes “A Coisa” (“It”), “O Ritual” (“The Rite”), “O Segredo da Cabana” (“The Cabin in the Woods”) e “Colega de Quarto” (“The Roommate”), todos de 2011; “Filha do Mal” (“The Devil Inside”), “Prometheus” e “Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros”, (“Abraham Lincoln: Vampire Hunter”), todos de 2012; “Invocação do Mal” (“The Conjuring”), “A Morte do Demônio” (“Evil Dead”), o remake “Carrie” (da obra de Stephen King), “Guerra Mundial Z” (“World War Z”), “Meu Namorado é um Zumbi” (“Warm Bodies”), “João e Maria Caçadores de Bruxas” (“Hansel and Gretel: Witch Hunters”) e “Willow Creek”, todos de 2013; “Annabelle”, “Extraterrestrial”, “I Frankenstein”, Voo 7500, “Drácula: A História Nunca Contada” (“Dracula Untold”), todos de 2014; “Exorcistas do Vaticano” (“The Vatican Tapes”), “A Forca” (“The Gallows”), “A Última Premonição” (“Visions”) e “O Uivo” (“Howl”), todos de 2015; “Quando as Luzes se Apagam” (“Lights Out”) – 2016; “Alien: Covenant” – 2017; “A Freira” (“The Nun”) e “Venom” de 2018; “Queen of Spades: Through the Looking Glass” e “Cemitério Maldito” (“Pet Sematary”), baseado na obra de Stephen King, ambos de 2019.




Conheça e curta os álbuns da coleção no “MUSEU GÓTICO” (“GOTHIC MUSEUM”) na página do Facebook indicada abaixo:


https://www.facebook.com/museugotico/



Seja bem vindo ao castelo!

domingo, 5 de maio de 2019

O MASSACRE DO MC DONALD’S DE SAN YSIDRO NO TEXAS

Revista ISTOÉ SENHOR nº 1.153 de 30/10/1.991

O massacre de San Ysidro McDonald foi um tiroteio em massa que ocorreu em torno de um McDonald's no bairro de San Ysidro em San Diego em 18 de julho de 1984. James Huberty de 41 anos atirou e matou 21 pessoas e feriu outras 19 antes de ser morto pela equipe da SWAT.
Em 15 de julho de 1984, Huberty mencionou a sua esposa, Etna, que ele poderia estar mentalmente doente. Dois dias depois, em 17 de julho, Huberty ligou para uma clínica de saúde mental solicitando uma consulta. Na manhã seguinte, na manhã anterior ao massacre, Huberty levou sua esposa e suas filhas ao Zoológico de San Diego. Huberty disse a sua esposa que sentia como se sua vida tivesse acabado porque a clínica de saúde mental nunca retornou o telefonema. Ele afirmou que "a sociedade teve sua chance".
Quando voltaram para casa do zoológico, Huberty deu um beijo de despedida em sua esposa e disse a ela que estava "caçando humanos".


Revista MANCHETE de 02/11/1.991


Por volta das 03:45 da tarde do dia 18 de julho de 1984, em San Diego, um Ford Mercury Marquis preto seguiu em direção ao estacionamento do McDonald’s do outro lado da rua. O homem que desceu daquele carro intrigou Armando. Vestindo uma calça militar e uma camisa escura, ele carregava uma bolsa. Dentro dela, uma metralhadora Uzi semi-automática 9 milímetros, um rifle Winchester calibre .12 e uma pistola Browning HP.
Segundos depois, as pessoas que estavam dentro do McDonald’s escutariam um grito: “TODO MUNDO DEITADO!”

Todos que estavam lá dentro obedeceram as ordens. O que o homem queria? Assaltar? Roubar? Não.

Ele queria… matar! Sem dizer mais nenhuma palavra, o homem começou a atirar nas pessoas que estavam deitadas perto da porta. E continuou metodicamente atirando em todos que estavam lá dentro enquanto caminhava pelo estabelecimento. Maria Rivera, estava com sua família, dois filhos e o marido, Victor. Ao ver o homem disparando, abraçou seus dois filhos e viu seu marido virar para o homem e implorar para ele parar com aquilo. O atirador se virou para Victor e o atingiu com um tiro, Victor caiu no chão gritando. O homem foi em sua direção e gritou: “CALE A BOCA!”, e atirou de novo e de novo… 14 vezes.

Jornal FOLHA DE SÃO PAULO de 18/10/1.991

Jackie Reyes, uma jovem mãe de 18 anos, levou 48 tiros. Seu corpo já sem vida no chão contrastava com a de seu filho, Carlos Reyes, de apenas oito meses de idade. Ele estava vivo, envolto nos braços da mãe morta. Os sobreviventes que viram aquela cena nunca mais a esqueceriam: com uma pistola 9 milímetros na mão, o atirador mirou e matou o recém-nascido com um tiro nas costas.


Pessoas agonizavam e o homem voltava em meio às poças de sangue para terminar o serviço. Algumas tentaram fugir e foram atingidas com tiros nas costas. Outras conseguiram sair daquele maldito inferno, mas o homem as perseguiu matando-as no estacionamento. Outras conseguiram fugir e se esconderam atrás de carros.


Omar Hernandez, David Flores e Joshua Coleman, todos amigos de escola, e todos com 11 anos de idade, brincavam do lado de fora quando o massacre começou. Eles correram até suas bicicletas. Mas Omar Hernandez e David Flores caíram mortos. Joshua Coleman, fingindo-se de morto, escapou por um triz e pôde viver sua vida… casamento, filhos…

Alicia Garcia cozinhava quando as balas começaram a ricochetear. Ela e outros dois cozinheiros correram por uma escada até uma sala nos fundos. Ela e outros funcionários do McDonalds conseguiram escapar.

O primeiro carro da polícia chegou às 16 horas e 7 minutos. Imediatamente a polícia de San Diego pediu uma equipe da SWAT. “Mande a SWAT… mande TODO MUNDO!”, gritou pelo rádio um tenente de polícia ao ser recebido a tiros pelo atirador.

Seis quarteirões ao redor do McDonald’s foram fechados. O que se seguiu a partir daí parecia sair de um filme de Hollywood. Durante uma hora e dezessete minutos o atirador e a polícia travaram um duelo digno de filmes de faroeste. Encurralado dentro do McDonald’s, o atirador em fúria assassina parecia aqueles vilões saídos dos nossos piores pesadelos. Quem seria esse louco?

A sanguinária tarde do dia 18 de julho de 1984 só terminaria quando, às 17 horas e 7 minutos, um atirador de elite da SWAT mirou seu rifle Remington calibre .308 com mira telescópica bem no meio do peito do assassino em massa e acertou um tiro em seu coração. Mas a morte do assassino foi apenas o início da tragédia: 21 pessoas mortas e outras 19 feridas. A vítima mais jovem, Carlos Reyes, tinha apenas 8 meses de vida, já Miguel Ulloa, o mais velho, tinha 74 anos.

Não havia dúvidas: aquele McDonald’s havia sido palco do pior assassinato em massa cometido por um indivíduo solitário em toda história americana até então.

O chefe da polícia de San Diego, Bill Kolender, chamou o episódio de: “…a mais terrível coisa que eu já vi em minha vida e olha que eu já estou nesse negócio a 28 anos”.

Passado o desespero e o terror, veio a famosa pergunta que sempre é feita após esse tipo de episódio e que até hoje ninguém nunca conseguiu responder.

Por quê?

O McDonald's doou o imóvel para a cidade e um monumento foi erguido no local, em memória dos mortos.

segunda-feira, 18 de março de 2019

O “ENVENENADOR DO TYLENOL”

O CASO NUNCA FOI SOLUCIONADO




Na década de 80 uma série de envenenamentos trouxe pânico aos consumidores de medicamentos.

O primeiro caso ocorreu em 29 de setembro de 1982, quando uma menina de 12 anos, enferma, residente em Elk Grove Village, Illinois, tomou inadvertidamente um comprimido de Tylenol Extra Forte envenenado com cianureto e morreu algumas horas depois no mesmo dia.

Ela foi uma das sete pessoas que morreram repentinamente após ingerir o popular medicamento, vendido sem necessidade de receita médica, enquanto os chamados “assassinatos Tylenol” ou “Tylenol terrorista” espalhavam o medo por todo o país.

As vítimas, todas da área de Chicago, variavam entre 12 e 35 anos de idade e incluiriam três membros de uma mesma família.

A Johnson & Johnson, empresa fabricante do Tylenol, lançou de imediato um maciço “recall” do produto e ofereceu US$ 100 mil de recompensa por alguma informação que levasse à prisão da pessoa ou pessoas responsáveis e comandou uma das mais bem sucedidas campanhas de relações públicas da história e recuperou imagem em pouco tempo.

Investigadores logo determinaram que as cápsulas envenenadas de Tylenol não haviam sido alteradas nas fábricas onde eram produzidas. Isso significava dizer que alguém subtraíra as caixas das estantes do almoxarifado, trocara os comprimidos por veneno, e os devolvera ao almoxarifado para que então fossem distribuídos nas farmácias e supermercados, onde as vítimas adquiriram os produtos adulterados.

Antes do escândalo “Tylenol Terrorista", o Tylenol era a droga mais vendida entre as que não careciam de receita médica a mais vendida da companhia Johnson & Johnson nos Estados Unidos. Alguns observadores chegaram a especular que o medicamento Tylenol jamais seria capaz de se recuperar do desastre. No entanto, no espaço de meses, Tylenol voltou aos escaninhos das farmácias com um novo envoltório de segurança.

Os “assassinatos Tylenol”, que inspiraram crimes similares envolvendo outros produtos, jamais foram solucionados, embora diversas pessoas tenham sido investigadas. Entretanto, um resultado positivo da crise foi que levou a indústria farmacêutica a desenvolver embalagens à prova de adulteração, que antes do caso Tylenol Terrorista” simplesmente não existia.



segunda-feira, 4 de março de 2019

O "VAMPIRO" DE NITERÓI




Marcelo Costa de Andrade, vulgo Vampiro de Niterói, é um “serial killer” acusado de ter matado cerca de catorze meninos nas redondezas de Itaboraí, cerca de 30 quilômetros de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro, no ano de 1991.

Marcelo viveu parte da sua infância na favela da Rocinha, na cidade do Rio de Janeiro. Vivia num lar desestruturado, e sua mãe, uma empregada doméstica, apanhava constantemente do marido. Foi mandado por um período para a casa dos avós, no Ceará, local onde disse que apanhava muito. Tempos depois foi mandado de volta para o Rio de Janeiro, onde constantemente era vítima de maus-tratos pelos novos companheiros dos pais, que haviam se separado. Foi nesse período que foi abusado sexualmente por um homem mais velho.

Foi então internado em um colégio para meninos, mas não tinha bom desempenho nas aulas. Lá era hostilizado pelos colegas e chamado de retardado. Aos quatorze anos, foi mandado embora do internato, pois a instituição só acolhia jovens de 6 a 14 anos.

Assim que saiu do internato, passou a se prostituir. Segundo Marcelo, sempre era ativo durante seus programas, mas certa vez um homem mais velho o teria obrigado a ser passivo, o que o perturbou muito. Nessa época ele tentou cometer suicídio. Tempos depois ele foi enviado para a FUNABEM, mas meses depois fugiu e voltou a se prostituir, sendo que aos dezesseis anos foi morar com outro homossexual, Antônio Batista Freire, que começou a sustentá-lo e o apresentou à Igreja Universal do Reino de Deus. Mesmo com o sustento do companheiro, Marcelo continuava a se prostituir, até que se separou do porteiro e voltou para a casa da família.

A partir daí, largou a prostituição e começou a trabalhar formalmente, ajudando a família nas contas e nos afazeres domésticos.

Marcelo frequentava os cultos há cerca de dez anos na época, além de assistir às celebrações pela TV diariamente. Segundo ele, foi num desses cultos que ouviu que quando as crianças morrem elas vão para o Céu. Segundo a lógica do assassino, ele não matava adultos, pois poderia os estar mandando para o inferno.













Crimes
No dia 16 de dezembro de 1991, Altair Medeiros de Abreu, de 10 anos, teria saído com seu irmão, Ivan Medeiros de Abreu, de 5 anos, até a casa de um vizinho, que lhe havia prometido oferecer um almoço. Na época o pré-adolescente morava numa zona de pobreza do bairro Santa Isabel, em São Gonçalo, município vizinho de Niterói. Os dois eram filhos de Zélia de Abreu, empregada doméstica que possuía mais cinco filhos.

Quando os dois garotos passavam pela estação central de Niterói, os dois foram abordados por Marcelo, que, segundo Altair, teria lhe oferecido cerca de quatro mil cruzeiros para que os dois o ajudassem a realizar um ritual religioso católico. Os três pegaram um ônibus e foram parar numa praia deserta, nos arredores do Viaduto do Barreto. Nesse momento, Marcelo tentou beijar o garoto mais velho, que fugiu assustado, mas sendo capturado em seguida e derrubado no chão; atordoado, ele viu seu irmão Ivan ser abusado sexualmente por Marcelo, que após o ato, o enforcou, avisando Altair que seu irmão estava dormindo.

Assustado, Altair passou a fazer tudo o que Marcelo queria, sendo depois levado pelo assassino até um posto de gasolina onde se limpou sobre os olhos atentos de Marcelo. Os dois dormiram em um matagal, e na manhã seguinte partiram para o Rio de Janeiro. Segundo consta, durante o trajeto, Marcelo teria se oferecido para morar com Altair, que teria concordado imediatamente. Nos depoimentos após o crime, Marcelo disse que teve piedade do garoto, pois ele teria sido "bonzinho" e prometido ficar com ele. Na época, Marcelo trabalhava como distribuidor de panfletos, e teria que aparecer no trabalho para buscar seus papéis. Assim que se distraiu, Altair aproveitou e fugiu do assassino.

Quando chegou em casa, por carona, Altair não revelou que seu irmão havia sido morto, só revelando o crime para uma das irmãs mais velhas dias depois. Marcelo não teria tentado procurar Altair nem tentado esconder o corpo, voltado no local do crime tempos depois para modificar a posição do corpo, corpo esse que foi encontrado por policiais horas depois. Segundo consta, as mãos do garoto estavam dentro dos shorts, o que afastou a tese inicial de afogamento, sendo constatado o abuso sexual no IML.

Quando o corpo foi identificado pela mãe de Ivan, Altair levou os policiais até o trabalho de Marcelo, que confessou o crime imediatamente, não demonstrando surpresa.

Na delegacia, Marcelo confirmou ser o autor de mais doze assassinatos. Ele revelou um dos seus primeiros crimes. Segundo o próprio, em junho do ano de 1991, ele havia acabado de descer de um ônibus quando viu o garoto Odair Jose Muniz dos Santos, de onze anos, pedindo esmolas na rua. Marcelo então o convenceu supostamente para ir até a casa de uma tia e pegar cerca de 3000 cruzeiros para dar ao garoto. Mas na verdade Marcelo o atraiu até um campo de futebol e tentou abusar do menino, e como não conseguiu, o enforcou.

Logo após, Marcelo foi para casa jantar e voltou mais tarde, quando decapitou o corpo do garoto. Marcelo afirmou que fez isso com o garoto para se vingar do que faziam com ele durante a época que viveu no internato.


O primeiro crime ocorreu em abril de 1991, num túnel debaixo da BR 101, em Niterói. Marcelo estava voltando do trabalho quando viu um garoto vendendo doces na avenida. Inventou a mesma história do dinheiro e do ritual religioso e o levou para um matagal. Tentou fazer sexo com o garoto, mas este resistiu. Marcelo o agrediu com pedras e depois o asfixiou e o estuprou. Após o ato, Marcelo enforcou o menor com a própria camiseta do menino.



Segundo ele, foi a partir daí que não conseguiu mais parar de cometer crimes.
  
No seu segundo crime, no mesmo túnel da BR 101 em Niterói, Marcelo atacou uma criança de 11 anos. O menor foi violentado à força seguidas vezes e depois foi enforcado com a camisa que usava.

No terceiro crime, cometido no interior de uma carcaça de fusca em Niterói, Marcelo tentou violentar a vítima de 7 anos, que resistiu no início e só cedeu após ser espancada. Enquanto o menor dormia, Marcelo lhe esmagou o crânio com uma pedra grande, recolheu o sangue na vasilha que utilizava para levar comida no trabalho e o bebeu todo. Beber o sangue da vítima o estimulou sexualmente e Marcelo teve mais uma relação sexual, desta vez com o cadáver.

No quarto crime, cometido em Japeri, um menor de 13 anos também foi espancado e violentado duas vezes. Ao amanhecer, Marcelo bateu com uma pedra na cabeça da vítima, recolheu o sangue numa vasilha e o bebeu. Depois disso, enforcou o menor com a própria camisa daquele.

No quinto crime, em São João do Meriti, um menor com idade de 10 ou 11 anos teve a barriga perfurada por Marcelo com uma chave de fenda. Depois Marcelo sodomizou o menor e, após, feriu a cabeça da vítima com um pedaço de concreto até sangrar. Recolheu em uma vasilha e bebeu o sangue do menor. Por fim, bateu com o pedaço de concreto sobre o peito (coração) da vítima, até ocasionar sua morte.

No sexto crime, na estação de Comendador Soares, Marcelo confessa que também bateu na vítima e a possuiu sexualmente. Ao amanhecer, retirou a camiseta do menor e o enforcou com ela.

No sétimo crime, em São Pedro da Aldeia, Marcelo violentou um menor de 9 anos ao menos duas vezes seguidas. Também o enforcou com a própria camisa que a criança usava.

No oitavo crime, num CIEP próximo da BR 101, em Niterói, Marcelo foi com o menor até o segundo andar do edifício e ali passou a bater a cabeça do menor no piso até sangrar, recolheu o sangue numa vasilha e o bebeu. Em seguida violentou a criança que, segundo Marcelo, não reagiu “porque estava muito fraca”. Por fim, matou o menor igualmente enforcado com a própria camisa.

No nono crime, no bairro de Manilha (onde Marcelo também morava), um menor de 12 anos foi espancado e abusado por Marcelo ao menos duas vezes. Também esta criança foi enforcada com sua própria camisa.

No décimo crime, também no bairro de Manilha, a vítima foi uma criança de 5 anos. Marcelo deixou cair uma pedra grande sobre a cabeça da criança e bebeu seu sangue que havia recolhido numa vasilha. Por fim Marcelo afogou a criança num riacho.

No décimo primeiro crime, próximo ao local onde Marcelo vivia, uma criança de 6 anos foi sua vítima. Não houve penetração e a consumação se deu entre as coxas do menor. Também este foi afogado num riacho.

No décimo segundo crime e no décimo terceiro, também em Niterói, em uma galeria próxima a um CIEP, Marcelo bateu com a cabeça da vítima de 11 anos numa parede, atordoando-a. Em seguida violentou e estrangulou outro menor de 5 anos, irmão da criança de 11 anos que também foi abusada sexualmente, mas foi poupada e levada por Marcelo até seu local de trabalho, de onde a vítima fugiu, vindo posteriormente a denunciar o ocorrido.

Marcelo alega ter matado um menor em Belo Horizonte/MG, mas o caso não foi confirmado. Suspeita-se que tenham existido outras vítimas.

Na maioria dos casos Marcelo levava para sua casa os shorts de suas vítimas, que guardava como recordação no fundo de uma caixa de revistas.

Por ser inimputável, Marcelo não foi julgado nem condenado e se encontra internado no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Henrique Roxo por determinação da justiça como medida de segurança.


sábado, 23 de fevereiro de 2019

AS BRUXAS (?) DE GUARATUBA


O Caso Evandro 

Caso Evandro refere-se ao sequestro e assassinato do garoto Evandro Ramos Caetano, em 1992, na cidade litorânea de Guaratuba, Estado do Paraná, no Brasil.
Evandro Ramos Caetano, que em 1992 tinha 6 anos, desapareceu em 6 de abril daquele ano. Seu suposto corpo foi encontrado em 11 de abril, num matagal da cidade, sem vários órgãos, com mãos e pés amputados, e vísceras e coração arrancadas.
O assunto gerou grande repercussão e comoção na imprensa brasileira (ver abaixo).







A promotoria pública do Paraná acusou Beatriz Cordeiro Abagge e sua mãe, Celina Abagge, como mentoras do sequestro e morte de Evandro com o intuito de utilizar o corpo em um ritual de magia negra.

Em 23 de março de 1998, Beatriz e Celina foram julgadas, pela primeira vez, no mais longo júri da história da justiça brasileira (34 dias de julgamento) e consideradas inocentes. Em 1999 o júri foi anulado, sendo retomado o julgamento em maio de 2011.
Outros envolvidos no assassinato, também foram julgados pelo crime, como o pai de santo Osvaldo Marcineiro, o pintor Vicente Paulo Ferreira e o artesão Davi dos Santos Soares foram condenados em 2004. Já Francisco Sérgio Cristofolini e Airton Bardelli dos Santos foram absolvidos em 2005.
Na tarde de 28 de maio de 2011, Beatriz foi condenada a 21 anos e 4 meses de prisão (em votação apertada: 4 x 3), 13 anos depois do primeiro julgamento. Em 17 de abril de 2016, o Tribunal de Justiça do Paraná concedeu perdão de pena para Beatriz Abagge.

Má Condução da Investigação – Abuso de Poder e Autoridade, Sevícias e Torturas

A revista ISTOÉ trouxe, na edição nº 2.163 de 27/04/2.011 informações que comprometem a seriedade das investigações e lançam dúvidas até mesmo quanto à identidade do corpo encontrado.
Informa a revista que as confissões foram obtidas de forma ilícita, sob tortura e por policiais que não tinham autoridade nenhuma para investigar o caso, pois, agindo a mando da promotoria local, a Polícia Militar havia torturado brutalmente os suspeitos para obter a confissão desejada.
Anunciada a localização do corpo de Evandro, ou do suposto corpo como se verá mais adiante, a polícia civil começou a investigar e a enfrentar obstáculos – um deles é que durante dois meses os laudos do IML e da perícia não lhe foram fornecidos, embora estivessem concluídos. Vai entrar em cena, nesse momento e sem competência legal para cuidar do homicídio, o então grupo de elite da Polícia Militar do Paraná.
Por meio de depoimentos de policiais e ex-policiais que atuaram no caso, dados com exclusividade à ISTOÉ, hoje se comprova que alguns integrantes desse grupo da PM agiram como agiam os seviciadores da ditadura, à época recém-encerrada no Brasil. “Houve tortura. Pessoas das quais os policiais militares suspeitavam foram sequestradas, levadas sem mandado de prisão e torturadas”, diz o delegado e diretor do Departamento de Crimes contra o Patrimônio, Luiz Carlos Oliveira, um dos homens mais prestigiados da polícia no Paraná. Ele fala com a autoridade de quem investigava o desaparecimento de Leandro e cruzou com as investigações sobre a morte de Evandro. “Beatriz e Celina foram seviciadas até dizerem que mataram Evandro. Outro acusado, o pai de santo Osvaldo Marcineiro, não tinha mais costas de tanto levar porrada. As costas dele ficaram negras. Era um hematoma só. Eu vi.”  
Os policiais prenderam e transportaram em carros “chapas frias” Celina e Beatriz, achando que Beatriz era Sheila. Enquanto isso, Osvaldo Marcineiro e mais dois suspeitos já amargavam torturas na casa de veraneio em Guaratuba do ex-ditador do Paraguai Alfredo Stroessner, localizada e fotografada por ISTOÉ. Tanto em Curitiba quanto em Guaratuba, a questão de ter havido tortura é ponto pacífico. “O Ministério Público quer condenar a ré para jogar uma cortina de fumaça nas atrocidades cometidas”, diz o advogado Adel El Tasse.
Beatriz foi violada sexualmente por cinco torturadores, tomou choques elétricos e padeceu de sessões de “afogamento” numa chácara – eis a explicação do motivo pelo qual ela não conseguiria durante anos lavar o rosto normalmente. “Desmaiei não sei quantas vezes durante a tortura, sangrei, urinei, evacuei. Foi estupro, choque e afogamento”, diz ela. E os torturadores só souberam que Beatriz era Beatriz, e não Sheila, quando levaram um ensanguentado Osvaldo Marcineiro à sua presença e ele a chamou pelo nome. Na mesma chácara, em outro quarto, Celina também era seviciada. Quando Beatriz não suportou mais o suplício, foi carregada para diante da mãe e implorou: “Diga tudo o que eles quiserem porque eu não aguento mais choque, não aguento mais estupros e afogamentos.” “Ela me suplicou para que eu falasse em um gravador tudo aquilo que os torturadores me ditavam”, diz Celina.
Em fita cassete que compõe o processo, ouvem-se vozes ao fundo e há o constante ruído de ligar e desligar o aparelho. Mais: as respostas de Celina demonstram que alguém corrigia o que ela falava: “Com o que você matou?”, pergunta o torturador. “Com uma paulada”, responde Celina – e o gravador é desligado. Ligado novamente, ela corrige: “Com uma faca.” Desliga. Liga. Ela diz: “Não, com uma serra.” Ruído, e vem a complementação: “Serra da serraria.” “Uma investigação que começa errada só pode terminar errada”, diz o ex-policial e advogado João Ricardo Keppes de Noronha, que à época mandou apurar o que ocorrera. Dos “porões” da repressão em Guaratuba elas foram transportadas para diversos postos da Polícia Militar e finalmente à penitenciária de Piraquara – aquela onde soldavam o basculante para as “bruxas” não fugirem. Ao desembarcarem nela, cada uma das mulheres ficou trancafiada um mês em “solitárias”, nuas, sem direito a banho, sem um segundo de sol e privadas de alimentação adequada. Beatriz já começava a gargalhar sozinha a gargalhada das loucas, quando uma aranha a devolveu à sanidade.
De fato, conforme se observa do trecho da transcrição do depoimento publicado à época pela revista VEJA de 15/07/1992, fica evidente que a depoente está sob forte pressão no momento da gravação (ver abaixo).


O corpo Sepultado Não é de Evandro
O coronel da reserva Valdir Copetti Neves rompeu o seu silêncio de 19 anos e declarou: “Por que perguntar de tortura e circunstâncias de prisão somente para mim? Por que não se pergunta também ao Ministério Público e à Polícia Federal que estavam na investigação?” Não bastasse a forma ilegal e truculenta de investigação, vários depoimentos de autoridades de Curitiba e de pessoas do povo de Guaratuba dão conta de que o corpo que está sepultado, no terceiro túmulo para quem pisa o Cemitério Central através de sua porta principal, muito provavelmente não é o de Evandro Caetano. O Ministério Público admitiu que não tinha fato novo para o julgamento e acabou alimentando a tese de que Evandro não está ali enterrado: em 19 anos, por 18 vezes se pronunciou contrário à exumação, atitude que não tomaria se tivesse certeza de que se trata dos restos mortais do menino.


O túmulo é uma capela de tijolinhos com gavetas à sua esquerda. “Em qual delas está o Evandro?”, pergunta-se ao zelador do cemitério, Luiz Ferreira. De óculos escuros, fumando e negando-se terminantemente a ser fotografado, ele dispara: “Em qual gaveta? Se é que ele está aí. Quem disse que ele está aí?” O garçom Wilson Henttralt, 56 anos, que vive em Guaratuba e desde criança é vizinho da família de Evandro, também levanta dúvidas em relação ao fato de ser mesmo dele o corpo que a polícia atestou que era. “Esse crime paralisou a cidade e ainda hoje só se fala sobre ele. Houve muita confusão, acho que ninguém sabe ao certo se o corpo encontrado é o do garotinho”, diz Henttralt. “Certeza absoluta de que não é o corpo” quem tem é o delegado Oliveira: “Não é o cadáver de Evandro. Durante as investigações eu disse: pago do meu bolso as despesas de exumação. Ninguém quis me ouvir.” 
Três exames de DNA foram feitos na época e dois deram “inconclusivos”. O terceiro teste, com um dente de leite que a mãe de Evandro guardara em sua casa bem antes do desaparecimento do filho, constatou apenas o óbvio: que se tratava de um dente do menino. Até aí, nada. Não se estabeleceu nenhum vínculo entre esse dente de leite e o corpo. ISTOÉ revela o depoimento prestado à Justiça pelo professor de criminalística e perito criminal Arthur Conrado Drischel, que examinou local e cadáver: “O corpo não condizia com uma criança de 6 anos de idade, que no caso também não poderia condizer com a vítima Evandro Ramos que tinha 6 anos de idade (…) e todos os outros dados também não condiziam com a descrição de Evandro.” Mais: os peritos deixaram registrado o “desconhecimento da identidade da vítima”.

Até os dias atuais a história que mais resiste ao desgaste do tempo naquela pequena cidade paranaense é o caso das “Bruxas de Guaratuba”.