terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

ANO DE 1.979: BRUXARIA E FOGUEIRAS




Quando uma cidade brasileira voltou à Idade Média
Popularmente, o termo macumba é utilizado para designar pejorativamente vários cultos sincréticos praticados comumente no Novo Mundo, sob a influência de religiões como o Candomblé e mesmo os cultos indígenas de algumas tribos.
Porém, ainda que macumba habitualmente seja confundida com tais práticas religiosas, os praticantes e seguidores dessas religiões rejeitam o uso do termo para designá-las. A macumba, na acepção mais popular do termo, se refere mais propriamente ao feitiço, ou despacho.
Tanto a Umbanda quanto o Candomblé normalmente trilham suas práticas no caminho do bem, mas existem terreiros que se dedicam também (ou tão somente) à prática da magia negra, fazendo trabalhos que não raro exigem sacrifícios de animais. O sacrifício humano pode ocorrer algumas vezes, como ocorreu no caso ora relatado.
Cantagalo, cidade pacata do Estado do Rio de Janeiro, contava à época com uma população em torno de 15.000 (quinze mil) habitantes. Na época dos fatos, por conta das suas extensas reservas de calcário então descobertas, a região vinha atraindo o interesse de vários grupos internacionais.
No dia 07 (sete) de outubro daquele ano, durante um piquenique, foi sequestrado Antônio Carlos Viana, conhecido como Juninho, uma criança de apenas 2 (dois) anos de idade. Inúmeras buscas foram feitas pela região, mas sem sucesso algum, até que, no dia 14 (quatorze) de outubro foi encontrado o cadáver da criança, sem cabeça e desmembrado.
Durante as investigações em torno do caso a polícia descobriu que rituais eram realizados na Fazenda Bom Vale, de propriedade de Moacir Valente, durante os quais eram sacrificadas crianças, “de preferência louras e do sexo masculino”. O objetivo destes sacrifícios era obter, junto a entidades do mal, vantagens para Moacir Valente em suas negociações com grupos australianos e alemães que pretendiam se associar a ele na exploração das reservas de calcário existentes em suas terras.
Sob a orientação de Pai Ogir ou Ogideir (Ajuricaba Coutinho de Souza), suposto seguidor do que denominava umbanda de Angola, o resultado das negociações com as multinacionais poderia ser favorável a Moacir, desde que este atendesse ao pedido do santo Tranca Rua das Almas, sacrificando uma criança.

A criança foi sequestrada quando estava sob os cuidados de sua tia-avó Maria da Conceição Pereira Pontes, tia de Sandra (mãe da vítima Antônio Carlos) e empregada na fazenda de Moacir. Após o sequestro, Moacir mandou prender a criança num paiol da fazenda, onde a mesma ficou até o dia do sacrifício, quando foi morta por Valdir e Fiote, empregados na fazenda de Moacir Valente..
Segundo o depoimento de Valdir Souza Lima: “No dia 10 eu e o Fiote pegamos o garoto e o levamos para uma figueira que fica na entrada da Fazenda Bom Vale. Lá tem o cercado de arame e, no meio, um altar cheio de imagens. Eu peguei o garoto pelos braços, e o Fiote, com um canivete, cortou o pescoço dele, deixando o sangue derramar numa tigela. A criança deu um gritinho e morreu. Quando já tínhamos tirado todo o sangue, resolvemos esquarteja-lo, cortando os braços e a cabeça. Embrulhamos o corpo num saco de papel e levamos a tigela com o sangue para seu Moacir Valente. Ele bebeu uma parte e mandou que a gente jogasse o resto na cachoeira da fazenda”.

Com a criança desaparecida, todos os esforços para localizá-la haviam se revelado inúteis, levando a polícia a suspeitar que houvesse se afogado em alguma das cachoeiras da região, ou que tivesse sido levada por ciganos, mas não se descobriu nenhuma pista. Até que no dia 14, um tio da criança encontrou os braços cortados e a cabeça jogada num outro canto, próximo a um estábulo da fazenda, e, mais adiante, o corpo com as pernas.
No dia 17, quando Fiote foi preso, já corriam pela cidade as notícias sobre os rituais de magia negra na fazenda. Foi neste dia 17 que Valente decidiu retornar do Rio de Janeiro para Cantagalo, sob a proteção do Coronel Góis, para se apresentar à polícia.
Quase ao mesmo tempo, em Cantagalo, amigos do carreteiro Antonio Carlos Vieira, pai do menino morto, instigavam a população a fazer justiça com as próprias mãos.
Às 19 (dezenove) horas a multidão que começara a se juntar por volta de 15 (quinze) horas já somava quase 2.000 (duas mil) pessoas. Armados de paus, foices, marretas e pedras, rumaram para a Delegacia de Polícia. Apenas 3 (três) policiais civis e 7 (sete) militares lá estavam. Ali também se encontravam presos, em celas separadas, Moacir Valente e Anésio Ferreira (o Fiote).
A multidão forçou a retirada dos policiais e invadiu furiosamente a delegacia, arrebentando tudo o que via pela frente. “Fiote” e Valente foram localizados e brutalmente espancados. Enquanto uns traziam ambos para a rua, outros tratavam de incendiar as viaturas que estavam estacionadas na porta da delegacia.
Segundo Renato Godinho, então delegado de Cantagalo, Fiote e Valente ainda estavam vivos quando foram atirados às chamas.  

(Nota: Fotos do jornal O GLOBO, digitalizadas da revista EROS nº 2 - 2ª quinzena de novembro de 1.979).



                                    Moacir Valente                        Anésio Ferreira (Fiote)
                                         Wilson e Maria da Conceição (implicados nas mortes)


                                        
Os pais de Antônio Carlos 

                                         "Macumba" com galo morto encontrada na Fazenda Bom Vale

Viaturas em cujas chamas foram queimados Valente e Fiote

Jornal da época, tratando do caso.
















                                                                             


sexta-feira, 31 de maio de 2013

A FOTO MISTERIOSA DO FANTASMA DA MULHER ASSASSINADA.

Corria o ano de 1.988 e eu ainda cursava o terceiro ano da Faculdade de Direito. Um colega do primeiro de faculdade, sabendo do meu interesse pelo sobrenatural (pesquiso e coleciono temas góticos desde 1.976), me apresentou uma foto integrante que retratava um casal, tendo a sobreposição de uma mulher deitada. 

Disse-me ele que era um casal de amantes e que a esposa legítima fora envenenada pelo marido, por influência da amante. Quando o viúvo se casou com a amante, resolveram registrar em foto o evento. 

A surpresa veio quando, ao revelar a foto, apareceu em sobreposição o “fantasma” da falecida. Segundo me foi dito o fotógrafo, intrigado com o fato, encaminhou a foto à polícia que interrogou o casal e obteve a confissão. Outra versão dava conta de que, ao ver a foto, o marido arrependido se entregara à polícia, confessando tudo. 

Na época fiquei muito interessado pela foto, mas o colega não queria se dispor dela, mesmo porque não lhe pertencia e a tomara emprestado apenas para me mostrar. Eu queria a todo custo ao menos uma cópia daquela foto, mas na época não existiam os recursos que hoje temos (scanner ou mesmo a máquina fotográfica digital para copiar a foto). E as fotocópias eram de qualidade precária. 

A única solução era refazer o negativo a partir da foto e duplica-la em laboratório fotográfico, o que levaria alguns dias. Após muita insistência minha, o colega de faculdade, embora relutante e apreensivo quanto à possibilidade de extravio, me emprestou referida fotografia, da qual obtive em laboratório a cópia abaixo, a qual integra meu acervo particular até os dias de hoje.

  

Pesquisando mais sobre o assunto, descobri que a fotografia data de 1.949, e consegui localizar na internet seu original, em estado de conservação bem mais precária que a foto que possuo. 

 

A história, ao que tudo indica é real 

Uma foto tirada na década de 40 causou mistério e espanto em Monte Alegre de Minas. A imagem era para registrar o dia de um casamento, mas acabou revelando um assassinato. A mulher traída e assassinada pelo marido aparece deitada, sobreposta à imagem do novo casal, formado pelo homem e sua amante, que era amiga dos dois. 

A história rendeu uma música à dupla sertaneja Tonico e Tinoco, intitulada “Justiça Divina”. A música que fez sucesso sendo tocada nas rádios AM de todo o país retrata esta história, que agora é contada pela dona Hilda Gervásio Siqueira, de 84 anos, moradora da cidade do Triângulo Mineiro. 

 Ela, que chegou a conviver com as personagens na sua juventude, falou de um homem que interrompeu drasticamente seu relacionamento com a esposa, grávida, apesar de viverem aparentemente felizes. Eles tinham uma amiga em comum, que era amante do homem. Cansada de ser a outra, planejou a morte da mulher para tomar seu posto. 

Mesmo sabendo que a esposa legítima estava grávida, ele a matou asfixiada com um lenço. Os dois arrastaram o corpo até um pasto e enterraram. Na foto a mulher aparece deitada com o lenço na mão. 

Após o casamento com a amante, quando o fotógrafo entregou a foto revelada, o marido se assustou e confessou o crime.  

Foto foi tirada em 1949 

Ao contrário do que diziam as tentativas de elucidar o mistério, naquela época não havia possibilidade de sobreposição de imagens. As máquinas em 1949, eram do tipo em que o fotógrafo precisava entrar por debaixo de um pano e explodia uma pólvora, funcionando como flash. 

Especialistas que avaliaram a foto disseram que dá pra perceber uma criancinha no ombro da mulher morta, que seria o bebê que ela estava gerando.  

O vídeo 

A narração acima tem por base o seguinte vídeo:  


A música 

Tonico e Tinoco, indiscutivelmente os maiores ídolos da música caipira (não confundir com música sertaneja), ou “moda de viola” como se dizia na época, eternizaram o episódio na música intitulada “Justiça Divina”, cuja letra segue adiante e que poderá ser ouvida no link ao final. 

Justiça Divina (Tonico e Tinoco) 

(Declamado) 

Dois jovem se casava 
No Arraiá de São José 
Morava a felicidade 
No seu rancho de sapé 
Um dia por u'a amante 
Abandonô sua muié 

(Cantado)

E largô da sua esposa 
Foi simbora do povoado 
Foi vivê com sua amante 
Esqueceu o dever sagrado 
Um dia a amante falô 
Com seu gesto enciumado 
Vai dar fim na sua esposa 
Pra nois viver sussegado 

 Já vencido da paixão 
Como quem tá enfeitiçado 
E matô sua muié 
Enterrô num descampado 
Vivero assim muitos ano 
Como quem fosse casado 
Foro tirá uns retrato 
Por lembrança do passado 

Quando a foto revelou 
No retrato apareceu 
Entre a amante e o assassino 
A esposa que morreu 
Toda coberta de flôr 
Num caixáo que ele não deu 
E um filhinho do seu lado 
Que por crime não nasceu 

Vendo isto o retratista 
Na policia apresentô 
Eles fôro condenado 
O assassino confessô 
Ficaro os dois na prisão 
Conforme a lei condenô 
Castigo da providencia 
Justiça do Creador. 

Para ouvir a música clique em: 

terça-feira, 22 de novembro de 2011

LITTLE BIGHORN

                                 
Acima: Cavalo Louco e Touro Sentado. Abaixo: General Custer.


Assim como na colonização espanhola e portuguesa na América Latina, o colonialismo da coroa britânica trouxe irreparáveis danos à civilização e à cultura nativas, que prosseguiram mesmo após a independência norte-americana.

Nos Estados Unidos da América o confronto entre brancos e índios pele-vermelhas sempre foram uma constante, dando ensejo ao período conhecido como as “Guerras Indígenas nos Estados Unidos”, inobstante, a rigor, inexistisse propriamente uma guerra declarada, mesmo porque se tratavam de disputas internas de território.

Hoje em dia pouco se fala sobre o assunto, mas, devido especialmente ao cinema, os indígenas norte-americanos foram sempre apresentados como selvagens bestiais, que matavam sem piedade os brancos, inclusive com a prática ritual de colher e colecionar escalpos, que é como os índios pele-vermelhas denominavam o couro cabeludo arrancado ainda com os cabelos. Em geral o topo do crânio das vítimas (com a porção de cabelo que o cobria) era arrancado a golpes, geralmente de machadinhas, e guardado ou exibido como troféu de guerra. 

Foi neste contexto de disputas territoriais entre brancos e índios que inúmeras batalhas ocorreram, com requintes de crueldade de lado a lado.

Todavia, a cavalaria norte-americana, via de regra apresentada como sendo composta pelos bons “mocinhos” nos filmes de cowboy, também perpetrava crueldades inimagináveis.

O que poucos sabem (ou preferem comentar) é que havia atrocidades também por parte da cavalaria dos Estados Unidos. Seu mais famoso comandante, o General Custer, tinha por hábito, juntamente com seus comandados, de atacar acampamentos indígenas quando os guerreiros estavam ausentes e então assassinarem fria e covardemente suas mulheres e crianças, o que vem a ser confirmado em filmagens mais recentes, como “Pequeno Grande Homem”, (“Little Big Man”) estrelado por Dustin Hoffman, e que trata sobre a famosa batalha de “Little BigHorn”.

Também encontramos essa batalha no filme “Bury My Heart at Wounded Knee” (“Enterrem Meu Coração na Curva do Rio”, no Brasil), dirigido por Yves Simoneau e escrito por Daniel Giat e Dee Brown, com Anna Paquin (True Blood”).

George Armstrong Custer, conhecido como General Custer, nasceu em New Rumley, Ohio, aos 05 de dezembro de 1.839. Morreu aos 25 de junho de 1.876, no Rio Little Bighorn, em Montana.

Na Guerra da Secessão, Custer destacou-se como um agressivo oficial de cavalaria da União, alcançando o posto temporário (“brevet”) de general de brigada de voluntários com apenas 25 anos de idade, tendo papel de destaque em várias batalhas, como em Gettysburg, o maior combate daquela guerra.

Após a guerra civil, retornou ao seu posto permanente de capitão do exército regular no Quinto Regimento de Cavalaria. Em 1.866, foi nomeado tenente-coronel, sua patente final, lotado no recém-formado Sétimo Regimento de Cavalaria, onde passaria a tomar parte nas “Guerras Índias”.

É importante destacar-se aqui que as populações indígenas norte-americanas enfrentavam rotineiros conflitos entre si. Dessa forma, a divisão do povo indígena sempre foi um fator que auxiliou em muito as vitórias das forças militares norte-americanas. 

Entretanto, dois grandes líderes indígenas conseguiram reunir grupos rivais de índios numa coalização integrada em sua maior parte por Cheyennes e Sioux: Touro Sentado[1] e Cavalo Louco[2].

No dia 25 de junho de 1.876, Custer conduziu o Sétimo Regimento de Cavalaria num ataque contra o grupo indígena, possivelmente subestimando sua real capacidade de combate.
Comandando cerca de seiscentos homens, Custer dividiu suas tropas em quatro colunas. Uma, comandada por ele e as outras, comandadas pelo major Reno, pelo capitão Benteen e pelo capitão McDougal.

Porém, além de a aldeia ser enorme, com cerca de 10.000 índios, com 3.000 ou 4.000 guerreiros preparados em sua defesa, seus comandados, principalmente Reno e Benteen, desobedeceram suas ordens e o abandonaram cercado com cerca de 210 homens.
A batalha foi o mais famoso incidente das chamadas “Guerras Indígenas” e resultou na vitória dos Lakotas, Sioux e Cheyennes do Norte, que aniquilaram um destacamento da cavalaria estadunidense comandado pelo general Custer. Foi a maior derrota do exército norte-americano durante aquelas guerras.

Reza a lenda que, antes de matarem o General Custer, os índios que o aprisionaram furaram-lhe os olhos e os tímpanos, e ainda cortaram sua língua, para que seu espírito reencarnasse cego, surdo e mudo, como forma de expiar as maldades que cometera contra os povos indígenas.

Cavalo Louco empreenderia a maior batalha contra a cavalaria norte-americana em 08 de janeiro de 1.877, em Wolf Montain, Montana. Em 05 de maio de 1.877, com seu povo cansado e faminto, ele se rendeu às tropas do General Crook em Nebraska.

Perseguido pelo exército dos Estados Unidos, Touro Sentado levou os seus homens até ao Canadá, onde permaneceram até 1.881. Neste ano regressou com a sua tribo aos Estados Unidos para que a sua gente se entregasse e acabasse assim a guerra. Touro Sentado não conseguiu uma porção de terras canadenses, porque a Rainha Vitória o considerava um selvagem dos Estados Unidos.

Nos anos seguintes Touro Sentado fez parte do show de Buffalo Bill.

Touro Sentado sentiu-se atraído pela “Dança dos Fantasmas”, religião fundada pelo suposto messias Wovoca. Segundo o profeta, que se dizia o próprio Cristo, a dança faria com que no próximo ano a terra engolisse os homens brancos das terras dos índios. O governo dos Estados Unidos viu nestas danças uma ameaça e enviou uma polícia índia para prender o chefe hunkpapa. Touro Sentado e seu filho morreram baleados na luta que se seguiu à tentativa de prisão.

A música anexa, no idioma lakota, talvez possa ajudá-lo a entrar no clima daquele momento histórico tão violento e místico.


[1] O nome “Touro Sentado” (em inglês “Sitting Bull”) é um grande equívoco ortográfico, já que os indígenas norte-americanos desconheciam o gado bovino, introduzido pelos europeus. O nome correto, na língua lakota é “Tatanka Yotanka”, cujo significado literal é “Búfalo Macho Sentado”. Foi um chefe indígena dos Sioux Hunkpapa e viveu entre os anos de 1.834 e 1.890.

[2] “Cavalo Louco” (em inglês “Crazy Horse”) provém do nome “Ta-sunko-witko”, em língua lakota.



sábado, 29 de outubro de 2011

PETER KURTEN – O VAMPIRO DE DÜSSELDORF








   
Peter Kurten foi mencionado na página 31 do livro “VAMPIRO – O FANTASMA NEGRO”, de nossa autoria. Todavia ali foram passadas ao leitor, sumariamente, as informações necessárias para compor uma nota de rodapé, ao contrário do presente artigo, no qual se pode dedicar mais atenção a tão importante assunto.

A maior parte das informações contidas abaixo foi extraída do livro “O PROCESSO DO VAMPIRO DE DUSSELDORF”, lançado pela Editora Noblet na década de 70, muito embora outras fontes tenham sido igualmente consultadas.

Quando se fala em vampiro a primeira imagem que nos vem à mente, com toda certeza, é aquela do cinema, a qual, por sua vez, vem quase sempre embasada no romance “DRÁCULA” de autoria do escritor irlandês Bram Stoker, fundamentada em lendas da península balcânica e da região dos Cárpatos, as quais, por sua vez, desautorizam por completo a existência de vampiros vegetarianos e que brilham sob o sol, como escreveu Stephenie Meyer na série “Crepúsculo”.

Entretanto, ao longo da história, inúmeras homens e mulheres existiram, os quais, historicamente, foram reconhecidos como vampiros, sendo verdadeiro exemplo disso Vlad Tapes (Vlad, o Empalador), filho de Vlad Dracul (Vlad, o Dragão), herói do povo romeno, o qual certamente inspirou o romancista irlandês no clássico da literatura gótica que deu origem a centenas de outras obras, entre filmes, livros e revistas.

Ao contrário de inúmeros outros casos, nos quais a distância histórica impossibilita o respaldo de documentação fidedigna (Gilles de Retz ou Elizabeth Bathory, por exemplo), ou quando inexiste a identificação do autor do crime (como é o caso de Jack, o Estripador), Kurten é um fantasma recente, documentado historicamente, cujas vítimas são conhecidas, e que é um exemplo vivo de que o vampirismo transcende as raias de tudo quanto pode ser humanamente ponderável.

Verdadeiro desafio à psicologia forense, Peter Kurten, de família numerosa e pobre (o terceiro de treze filhos), nascido aos 26 de maio de 1.883, cresceu como um bicho, assombrado pela miséria em pleno início da industrialização, onde a luta pela sobrevivência não escolhia armas, nem inimigos.

Seu pai, alcoólatra, espancava a mãe e as crianças, isso quando não tentava alguma prática ignóbil com os filhos, como o atentado sexual que Kurten viu seu pai perpetrar contra uma de suas irmãzinhas (em 1.897 seu pai foi condenado a um ano e três meses de reclusão pela prática de incesto com uma das filhas).

Desde a mais tenra idade Kurten esteve envolvido em algum tipo de delito, e era um fugitivo freqüente. Mais tarde ele alegaria ter cometido seus primeiros assassinatos com a idade de nove anos, afogando dois jovens amigos enquanto nadava. 

Quando jovem, Kurten foi contratado pela carrocinha local, um emprego que lhe permitiu praticar crueldade contra animais, auxiliando na matança de cães.

No início da vida adulta, Peter Kurten foi convocado para o Exército, mas desertou. Para divertir-se, desenvolveu a piromania: colocava fogo em celeiros e excitava-se sexualmente com a possibilidade de estar matando algum mendigo que lá dormisse.

Em 1.905, Peter Kurten foi condenado a sete anos de prisão, por roubo. Diria, depois, que envenenou vários colegas de prisão.

Pouco depois de sair da cadeia, perto de completar 30 anos, Peter Kurten foi abordar algumas mulheres, em um restaurante. Um garçom tentou afastá-lo e Kurten atirou nele, mas não o matou. Voltou para a cadeia por mais um ano. 

Kurten se mudou com sua família para Düsseldorf em 1.894, onde passou por inúmeros períodos de prisão em razão de diversos delitos e pequenos crimes, incluindo roubo e incêndio criminoso. Recolhido à prisão, deixava-a para voltar quase em seguida.

Seu primeiro assassinato ocorreu aos 25 de maio de 1.913, em Colônia-Mülheim, na festa de “Corpus Christi”. No albergue de Peter Klein, surpreendido durante um furto, Kurten primeiro asfixiou, e depois cortou a garganta da menina Khristine Klein e penetrou sua vagina com os dedos, espetáculo este que elevou ao máximo as sensações sexuais do assassino. Antes de se evadir, deixou cair um lenço com suas iniciais. Mas, pouco antes, o pai da garota havia discutido com o irmão, que acabou sendo acusado e julgado – e inocentado, por falta de provas.

Seus crimes foram, então, interrompidos pela primeira guerra mundial, além de uma pena de prisão de oito anos. Em 1.921, ele deixou a prisão e se mudou para Altenburg , onde se casou. Em 1.925 ele voltou para Düsseldorf , onde começou a série de crimes que culminariam na sua captura e sua condenação à prisão por vários anos.

No dia 3 de fevereiro de 1.929, domingo, Kurten atacou a golpes de tesoura a senhora Apollonia Künh, a qual, porém, recobrou os sentidos mais tarde, tendo buscado socorro, inobstante as 24 perfurações em seu corpo (notadamente o seio esquerdo), inclusive com uma das pontas da tesoura enfiada sob a pele do seu crânio.

Aos 08 de fevereiro de 1.929, uma semana após o atentado contra a senhora Kühn, Peter Kurten encontra a pequena Rosa Ohliger, de oito anos de idade, que se havia perdido à noite na volta para casa.  “Venha comigo, eu vou levá-la de volta para casa”, disse-lhe Kurten, arrastando-a para a Rua Kettwig. Naquele local Kurten apertou a garganta da criança até que ela desmaiasse. Depois enterrou-lhe a tesoura na têmpora direita e no seio esquerdo, o que lhe proporcionou intenso estímulo sexual, abandonando a criança morta e retornando à sua casa.

No dia seguinte, encheu de gasolina uma garrafa de bebida e retornou ao local do crime, ateando fogo ao corpo da criança.

A autópsia revelou catorze ferimentos: um na têmpora e treze no peito, alguns desferidos com tamanha violência que haviam atingido o coração. A morte fora instantânea.

Em 13 de fevereiro, ele assassinou um mecânico de meia-idade, esfaqueando-o 20 vezes. Kürten não atacou novamente, até agosto, quando esfaqueou três pessoas em ataques separados no dia 21. 

No dia 22 de agosto Kurten assassinou duas irmãs, uma com cinco e outra com catorze anos de idade. A autópsia permitiu constatar a presença de ferimentos mortais causados por um instrumento perfurante. No caso de Louise Lenzen (a mais velha), a arma cortara a artéria torácica e provocara morte por hemorragia. Quanto à pequena Gertrud Hamacher, a carótida e a grande veia tinham sido atingidas. 

Inúmeros policiais e trinta cães especialmente adestrados não conseguiram localizar o assassino.

Percebendo que era impossível assassinar suas vítimas com mais rapidez e eficácia, Kurten decide passar a atacá-las com um martelo, esfacelando-lhes o crânio. Em setembro, ele atacou brutalmente uma criada, Ida Reuter, com um martelo. A autópsia revelou que a mulher recebera treze golpes de martelo sobre a cabeça, fraturando-lhe o crânio.

Em outubro ele atacou duas mulheres com um martelo. 

Em 07 de novembro ele matou uma menina de cinco anos, Gertrud Albermann, primeiro por estrangulamento, depois apunhalando-a 36 vezes com uma tesoura. A autópsia revelou que a criança tinha duas feridas na têmpora e trinta e quatro no peito. Nove dos golpes haviam sido desferidos com tamanha violência que a arma atravessara o coração.

Em 1.930, em maio, Peter Kurten levou uma mulher, Marie Butlies, para sua casa. Comeram e depois foram ao campo. Peter Kurten tentou estuprá-la e estrangulá-la. Ela lutou e, em determinado momento, Kurten perguntou se ela lembrava seu endereço. Ela disse que não, e ele, acreditando, deixou-a ir embora. Ela o denunciou e ele foi detido, acabando por confessar à polícia crimes dos quais ninguém suspeitava que teriam sido cometidos por ele. 

Ao longo do processo Kurten confessaria que, em algumas ocasiões, teria ingerido o sangue de suas vítimas diretamente dos ferimentos que lhes causara.

No ano seguinte, Peter Kurten foi levado a julgamento, acusado de um total de nove homicídios, embora possa ter cometido muitos mais. A defesa tentou alegar insanidade, sem sucesso e ele foi condenado à morte pela guilhotina.

Inúmeras obras artísticas surgiram, no cinema, na música e no teatro, tendo por base a história de Peter Kurten, sendo a mais famosa delas o filme “M” de Fritz Lang, datado de 1.931, o qual, muito embora seu diretor negasse qualquer relação com a história de Kurten, acabou por se tornar mais conhecido como “M – O Vampiro de Dusseldorf”.

Ao tomar conhecimento da sua sentença de morte, Peter Kurten disse a um psiquiatra que seria a maior emoção da sua vida poder escutar o sangue escorrendo de seu pescoço, quando a lâmina caísse. 

Kurten não deve ter tido este último prazer, quando foi executado na guilhotina em 02 de junho de 1.931, na cidade de Colônia…